O LUGAR DO YOGA NA AGENDA2021
“O YOGA ESTÁ NA MINHA AGENDA COMO FISIOTERAPIA”

São diversas as motivações para iniciar uma prática de Yoga mas o grande desafio surge com relação à agenda. As pessoas raramente procuram um Professor específico ou um método quando estão a iniciar a “prática”. As pessoas procuram horários compatíveis com a agenda pessoal, profissional e familiar o que torna o início da prática desafiante e a criação do hábito uma miragem. Como colocar mais uma tarefa na agenda num momento em que a agenda pessoal, profissional e familiar perderam as linhas que separam as horas e toda a agenda é um borrão gigante intervalado por linhas de corrector que apagam planeamentos ultrapassados numa velocidade desconcertante?

A prática é cada vez mais promovida em formato “DIY”, através de vídeos de Youtube ou redes sociais o que condiciona a possibilidade de ser personalizada para as motivações e idiossincrasias de quem a procura. Isto é especialmente “grave” para um praticante que está a iniciar e com necessidades específicas.

Já abordamos no texto do mês anterior que estamos muito longe da relação com a prática de outros tempos. Tempos em que o aluno buscava o Professor, ainda que do outro lado do globo e sem internet, tempos em que o aluno se ajustava à disponibilidade do Professor e seu fuso horário, tempos em que a prática era uma primeira pele e não um casaco pendurado entre tantos outros à espera de ser escolhido para sair.
A prática é actualmente, e cada vez mais, entendida como um extra, um capricho, um exercício como tantos outros e por isso facilmente substituível.

“As pessoas procuram horários compatíveis com a agenda pessoal, profissional e familiar o que torna a prática uma miragem quando agenda pessoal, profissional e familiar perderam as linhas que separam as horas e toda a agenda é um borrão gigante intervalado por linhas de corrector que apagam planeamentos ultrapassados pela velocidade das mudanças.”

Não escrevo de forma jocosa ou com qualquer tipo de pretensão que me coloque num patamar diferente. Não senhor, a minha prática “entra na minha agenda” (pessoal mas não familiar ou profissional, o porquê deste parêntesis já vão entender com a continuidade da leitura) e entra(va) com o nome dos meus Professores pelos quais tenho profundo respeito e presto incontestável reverência. Se a minha prática aparecesse na minha agenda profissional e familiar sem nome associado ou associada ao meu nome pessoal o mais provável seria não ser respeitada, por mim e demais.

Chegamos à questão que dá título a este texto – o lugar do yoga na agenda de 2021. Qualquer Professor de Yoga sabe da necessidade de adaptar os seus horários aos horários da sociedade que o procura. Qualquer Professor de Yoga cria horários no sentido de promover rotinas de prática pois é sobejamente reconhecida a importância das rotinas na criação e manutenção de hábitos.

Durante anos estas rotinas pareciam claras e “universalmente” aceites. Aulas desencontradas de 2f a 6f, duas ou três vezes por semana, e uma aula ao sábado geralmente destinada a práticas temáticas, tradicionais ou para quem praticava uma vez por semana. Quanto aos horários também apresentavam uma ordem transversal: aulas a meio da manhã, 09h30/10h, para os que trabalhavam por turnos, estavam de baixa ou reformados. Aulas ao final da tarde, 18h/19h, para quem saia dos empregos e ainda não tinha filhos ou tendo os miúdos já tinham maturidade par gerir actividades extracurriculares. Aulas ao início da noite, 20h/21h para pessoal com filhos pequenos que tinha de tratar do regresso a casa e só podia sair após banhos e jantares estarem orientados. Recentemente (4/5 anos) tinha ganhado protagonismo as aulas das manhãzinhas, 06h/07h, antes da família acordar onde o único desafio era saber quando terminar o dia.

Assim o Professor de Yoga, para sobreviver na sua profissão, teve de se reorganizar como tarefeiro e fazer os horários em função dos alunos e ainda ajustar o seu ensino a um bloco de tempo, altamente restrito, disponibilizado pelos alunos sob pena do mesmo não renovar a mensalidade.

Trazer a verdade para cima da mesa ou falar do elefante na sala não é desvalorizar a importância da agenda ou criticar a sua soberania perante a prática, trata-se sim de perceber que de facto a prática passou a ser usada como algo que nos serve em vez de ser algo que simplesmente “é”. Percebi isto quando uma aluna muito entusiasta, comprometida e dedicada começou a aparecer nas aulas num registo quase diário ao contrário do padrão de desmarcação constante em cima da hora a que me tinha habituado. Quando a parabenizei pela mudança de atitude e motivação intrínseca que trazia prioridade à prática respondeu-me “Lara, a minha motivação sempre foi a mesma e a prática é minha prioridade mas não a da minha secretária ou dos meus pacientes. Quando percebi isso, disse à minha secretária que tinha iniciado um plano de fisioterapia neste horário e de imediato, e sem questionamentos ou julgamentos, ela bloqueou a minha agenda. Os meus pacientes em vez de reclamarem passaram a preocuparem-se comigo e todos agora percebem a importância da minha fisioterapia. Está a correr tão bem que confesso que não tenho coragem para lhe mudar de nome.” Achei genial.

É fundamental sermos conscientes da importância da nossa prática, do que ela representa para nós mas também ter consciência do que ela significa para os outros que podem condicionar o meu à vontade por lhe arranjar tempo na agenda. A partir desse dia sugiro às minhas alunas, principalmente Mães – que parecem não ter direito a nada mais do que a uma militância familiar e profissional (sobre isto leiam o texto do mês de Fevereiro na coluna Belly Love), que usem nomes como depilação, ginecologista, fisioterapia, lavandaria, reunião importante, entrevista ou qualquer outro semelhante para tapar o lugar na agenda que se dedica à prática.

Como sabem sou Professora, pratico de forma diária e regular com Professores (falo no plural porque tenho diferentes professores para diferentes práticas e disciplinas) ainda assim são 11h00, acabei à poucos minutos a minha prática que gravei por motivos de svadyaya – estudo pessoal. Preciso vê-la e revê-la, principalmente nos dias em que a minha cabeça arranja argumentos, desculpas para saltar a prática. Preciso tomar consciência de que não tenho de me sentir culpada por ter este tempo para mim, ele é fundamental para a forma como me relaciono com o outros.

Como referi alguns parágrafos acima, é reconhecia a importância do planeamento para criar uma rotina de prática e por isso, idealmente a prática tem hora fixa e a minha hora ERA 4h. É fácil praticar às 4h quando a casa ainda dorme. Porém o condimento e o fecho das escolas trouxe uma nova tarefa à minha agenda. Uma tarefa que não ocupa 2h por dia em tele-escolas e aulas online. Uma tarefa que ocupa 8h porque há que contabilizar o tempo de preparação para a aula, o tempo de aula com interrupções constantes tipo: “oh Mãe o iPad está sem bateria”, “oh Mãe não consigo ouvir a Professora”, “oh Mãe não encontro o exercício que a Professora mandou fazer”, “oh Mãe tenho sede”, “oh Joana, porque não estás em frente ao iPad?”, “Maria a aula já acabou?”, “Joana porque estás a fazer desenhos em vez de participar na aula?” “Maria estás a tomar atenção ao que a Professora disse?”. E quando tudo parecia estar a fluir vem o intervalo e com ele novas interrupções: “Oh Mãe recomeço daqui 10m”, “oh Mãe vou fazer xixi”, “oh Mãe tenho fome”, “Joana tens a certeza que ainda estás no intervalo?”, “Maria já estou a ouvir a tua Professora”. Claro que têm horários desencontrados para as poder apoiar por isso estamos a falar de um período das 09h às 13h neste registo. Depois vêm os trabalhos da tarde e a oferta complementar, as aulas online de música, de ginástica e de natação (sim, porque a natação que até agora precisava de um tanque de água passou a ser possível ser realizada de forma virtual?!?). Juntem a isto o tele-trabalho e algumas consultas presenciais, escrever para blogs, preparar congressos, dar formação, responder a casos urgentes, mentoras, reuniões de equipa. Não vale esquecer o puto de 3 anos que corre pela casa, que quer agarrar todos os iPads, que chama pelas irmãs e não percebe porque estão em casa e não podem brincar com ele! Ainda assim existem coisas que mantenho de forma natural sem necessidade de as apontar na agenda (para já, enquanto o discernimento o permitir!): lavar os dentes, dar atenção ao intestino, comer, tomar banho e… praticar.

A minha prática tinha tudo para não existir se necessitasse de um tempo na agenda. Não há tempo e por isso a minha prática deixou de precisar de tempo na agenda e passou a estar incluída nas minhas rotinas. Têm sido dias desafiantes, não em mantê-la pois é uma parte de mim que pede a mesma atenção que as necessidades básicas fundamentais, mas em travar o julgamento mental. Procuro não me envergonhar, não pedir desculpa, não questionar se foi ou não o que eu queria que fosse. A minha prática tem hora fixa, excepto os dias em que muda de horário (perceberam a ironia?!) e não está na agenda.

A minha prática é interrompida por um alucinado número de pessoas que irrompe a minha sala e que desafia a um nível que nunca achei possível manter o meu foco e a minha concentração. A minha prática não é perfeita, não é a que eu desejo mas é a que posso fazer e como é tão desafiante hoje mais do que nunca não dispenso os meus Professores. Hoje mais do que nunca agradeço o investimento e disciplina de a ter integrada como uma ROTINA, não fosse isso tinha-a perdido certamente. Se tivesse perdido a minha prática tinha perdido parte de mim. A prática é a única constante dos meus dias, a única coisa que não muda e me traz algum conforto e segurança de que dia a dia algo se mantém. A prática é o meu relacionamento mais longo e algo que nenhum confinamento me pode tirar.

Como professora, creio que o meu maior dever é incentivar e entusiasmar a praticar mas não tem como isso acontecer sem compreender os desafios actuais e sublinhar a importância de mudar o paradigma da prática.
A prática não é uma ginástica, um exercício ou uma tarefa de agenda.
A prática é tempo para ti e não deve ser desvalorizado nem por ti, nem por ninguém sobre ti.

É preciso entender, compreender que estamos todos a passar, constantemente, momentos desafiantes e que se a prática não está integrada como uma rotina qualquer despropósito ou surpresa a vão condicionar. Todos os dias somos confrontados com novas circunstâncias sejam elas a pandemia, um pé torcido ou uma diarreia e todos os dias, todos, fazemos o nosso melhor para lidar com as adversidades, as surpresas. Cada momento é uma oportunidade para realizar uma nova aprendizagem, todas juntas trazem mais resiliência face àquilo que foge ao nosso controlo. Na verdade não controlamos nada, este momento apenas serve de aprendizagem mais intensa e bruta desta verdade. Na verdade a ansiedade que surge da falta de controlo não é fruto da pandemia, é fruto de quem és e por isso só tu podes terminar.

Vem saber mais sobre a IMPORTÂNCIA DAS ROTINAS NA SAÚDE FÍSICA E MENTAL, segundo o Ayurveda e a tua experiência pessoal. hoje mais do que nunca somos chamados a nos responsabilizarmos sobre a vida que queremos viver.

Lara Lima
Fundadora do método BMQ, formadora da AMAYUR
Formadora reconhecida pela YOGA ALLIANCE
Terapeuta Ayurveda Sénior
Professora Sénior de Yoga