O INÍCIO DE UM CAMINHO DE EMPODERAMENTO
A PARTILHA DE UMA EXPERIÊNCIA QUE NOS PREPARA PARA SER… EU

M de Mulher, eu?

Quero começar este texto reivindicando, perante as minhas semelhantes, o direito de Ser Mulher algo que sempre defendi no meu trabalho com gestantes mas que muitas vezes me frustrou sem perceber a dificuldade das Mães em se posicionarem como mulheres quando o bebé nasce, quando ele cresce e até quando ele mesmo já é Mãe ou Pai.

Por outro lado, quero deixar registado um sincero pedido de desculpas a todas as Mães que “critiquei” por me sentir frustrada em não as conseguir empedrar como mulheres quando achei que era a altura (quanta pretensão). Três filhos depois percebo finalmente o desafio mas felizmente sem resignação. Sou Mãe sim, mas também sou Mulher! (Apesar de poder demorar algum tempo até o perceber.)

Quero ter a liberdade de me assumir como Mulher sem me sentir julgada e condenada no papel de Mãe. Quero ter a liberdade de me assumir como Mulher sem necessidade de pintar os lábios de vermelho ou lutar por direitos e deveres. Mas, acima de tudo quero mostrar a ti Mãe/Mulher que ser Mãe é apenas um papel do Ser Mulher. Um papel que podes ou não assumir, desejar ou realizar. Talvez seja o mais importante, talvez não. É um papel à tua medida e a tua medida é a única que te deveria importar pois para os teus filhos serás sempre a melhor Mãe do Mundo.  Agora Mulher, ter a liberdade de ser mulher é algo que devias conquistar essencialmente para ti, completamente dissociado de qualquer paradigma externo.

Quero também mostrar a ti, único Pai que me lê, que a Mãe dos teus filhos continua a ser Mulher, e se ela não o vê, fá-la sentir-se de novo Mulher oferecendo-lhe tempo, atenção e oportunidade para o Ser.

Para mim que sou Mãe, é fácil compreender que quando o dia termina a sensação é que não se fez o suficiente e que cinco minutos em silêncio debaixo do chuveiro são fundamentais para encontrar alguma paz. Juro que entendo o dilema de tirar um fim de semana para descansar sozinha, ir a um retiro, fazer um curso e a angústia de não ser a Mãe perfeita (?!) por estar a praticar yoga ou meditação em vez de os ter ido buscar mais cedo à escola ou não ter a casa arrumada.

Como Mãe conheço a realidade dos bastidores e por isso te digo sem receio que no processo de Maternidade para além de amor, existe também o medo, a tristeza, a renúncia e os dias negros. Nem só de luz e sorrisos é feita a maternidade apesar de todos te quererem convencer disso e ninguém falar do outro lado abertamente.

Seja nos grupos de facebook, no chá de bebé, nas conversas com amigas ou na noite de Natal, quando estás grávida todos te falam do amor incondicional e imensurável que irás sentir (amor esse que vem, não de imediato como te fazem crer mas a seu tempo, no teu tempo sem que te tenhas de sentir culpada ou forçada a senti-lo antes da sua chegada) e da renúncia normal de tomar um banho na hora desejada, de deitar e dormir quando e como quiseres, ires e vires de onde e quando quiseres. Desde o momento em que engravidas a sociedade faz-te crer que é normal o M de Mulher se doar por completo ao M de Mãe e que, ainda que a Mulher se perca nesse processo, ser Mãe faz tudo valer a pena deitando por terra qualquer argumento que possa vir à conversa se por vezes queremos reencontrar a Mulher que existe em nós.

Na verdade aposto que existe em cada Mãe uma vozinha que já chorou baixinho a incerteza de ter tomado a decisão certa em dizer “sim” à maternidade e ao mesmo tempo um vozeirão familiar a berrar – “tens de aguentar agora que escolheste ser Mãe”, e no meio tu, Mulher.

É certo que ser Mãe passa pela fase da renúncia da vida antiga, processo que varia de Mulher para Mulher, mas uma renúncia à vida antiga não é uma renúncia à Mulher e muito menos à Vida. A Mulher agora Mãe precisa aprender a renascer como Mulher Mãe e não Mulher versus Mãe.

Neste renascimento da Mulher existem coisas de Mãe que vão ficar na vida da Mulher, que fazem parte do papel Mãe:

  • o “trabalho” não remunerado, chegando a ser um trabalho ingrato, que começa no momento em que acordas, e às vezes, nem sequer termina quando vais dormir;
  • as tarefas pendentes que apesar de iniciadas raramente são terminadas graças ao constante desvio de atenção;
  • os momentos de descanso quando estás por conta própria em casa são sonhos não a realidade, especialmente se falamos em fim-de-semana ou férias;
  • a lista interminável de tarefas num ciclo que nunca tem fim e se renova de dia para dia;
  • o julgamento constante de outros, quanto mais próximos piores, por deixares os teus filhos aos cuidados de outras pessoas para ires trabalhar, descansar, relaxar.
  • o acordar uma hora antes de todos para terminar alguma tarefa inacabada, começar uma tarefa nova ou para ter um tempo em silêncio;
  • o “segundo turno”, depois do trabalho e antes de chegar a casa, pagar as contas, fazer as compras do supermercado, fazer o serviço de lavandaria e claro, o serviço de táxi das crianças;
  • o “terceiro turno” trabalho de uma dona de casa que ao chegar do trabalho a casa ainda faz o jantar, dá banho e jantar aos filhos, e lhes conta histórias na hora de dormir.

Assim é missão deste artigo te lembrar que neste nascimento da Mãe existem coisas de Mulher que deverão integrar a vida da Mãe, pois fazem parte do Ser Mulher:

  • reclamares um mimo, um beijo, um abraço, um presente e um obrigada;
  • ter hora marcada no cabeleireiro, na esteticista e na manicure porque sim;
  • chorar de amor ou simplesmente de emoção;
  • ser gentil, ser determinada, ser energética, ser ética;
  • cuidar da alimentação e da balança;
  • ter tempo para as amigas, para o cinema e para o bate perna;
  • gostar de namorar e comprar lingerie;
  • não perder um bom desejo de TPM;
  • lutar e acreditar na igualdade de género no trabalho e em casa;

E acima de tudo lembrar que é normal fazer planos para tudo isto, incluindo os filhos no plano. Sim, ser Mulher é fundamental mas ser Mãe é uma marca registada que deu continuidade à Humanidade e que por isso passa de papel a um modo de ser, um estado de espírito, uma força vital!

Lara Lima
Fundadora do método BMQ, formadora da AMAYUR
Formadora reconhecida pela YOGA ALLIANCE
Terapeuta Ayurveda Sénior
Professora Sénior de Yoga.