A PARTILHA DE UMA EXPERIÊNCIA QUE NOS PREPARA PARA AMAR

M de Mãe, a minha ou a tua?

Há quem diga que ser Mãe nos faz compreender melhor as nossas Mães. Então porque é que de repente ficou tão difícil ser filha, esposa, nora e mãe dos netos?

Querem a minha opinião? Ser Mãe traz uma parafernália de papéis, regras e coisas que para uma sociedade viciada na acumulação de papéis como a nossa se torna muito difícil de gerir. E, como se aprender a lidar com aquele pequeno Ser não bastasse, que aprender a gerir toda a equipa que nasceu com ele, especialmente quando chega a alturas do ano como o Natal.

Pois é, quando nasce um pequeno Ser não nasce apenas uma Mãe mas uma explosão de gente, quais Gremlins em contacto com a àgua. Nasce um Pai e mais, nasce não uma mas duas Avós, 2 Avôs e, dependendo da sorte, uma multidão de tios e tias com aspirações a Padrinhos e todas as promoções inerentes a um conjunto de pessoas com um objectivo comum (conquistar um local de destaque na evolução deste novo projecto – o bebé).

Hoje vamos ficar pelas Avós, as grandes Mães, as Mães das Mães e por isso (dizem elas) as “duas vezes” Mães.

Ser Mãe é como conquistar o topo da carreira e todos sabemos como é difícil mudar de cargo depois de conquistar o topo, nem que não se trate de uma despromoção mas apenas da reforma.

Ser Avó é isso. Ser Avó é a reforma das Mães. Mas a reforma tão esperada durante 30 anos não é facilmente aceite quando chega a altura de assinar os papéis e isso torna tudo mais difícil para a recém promovida Mamã que tem agora duas missões: (1) Aprender a Ser Mãe e… pasmem-se, (2) ensinar as Mães a serem Avós. Por isso grito em desespero (qual Mafaldinha inconformada):

“Há quem diga que ser Mãe nos faz compreender melhor as nossas Mães. Então porque é que ser Avó não faz o mesmo na escala evolutiva?”

Não se trata aqui do medo de sentir que as avós nos roubam o nosso protagonismo mas sim de as fazer entender que o seu protagonismo é e deve ser agora de Avó e não de Mãe da Mãe, Mãe do Pai, Mãe da cria e muito menos Juíz da Mãe da cria. Não se trata do chocolate que dão ao nosso pequeno Ser, do leite, iogurtes, pão ou bolachas que lhe dão à nossa rebelia mas sim do facto de não o fazerem às escondidas, entre olhares cúmplices, mas de forma descarada confrontando, com uma atitude desafiadora, a nossa decisão de não dar.

Não, não tenho medo de perder o protagonismo de Mãe quero apenas que ela aceite o seu protagonismo de avó pois cada uma tem seu lugar e seu papel na vida da criança e o meu pequeno Ser não precisa de mais uma Mãe mas sim de duas Avós únicas, afetuosas e inesquecíveis.

Não se trata de negar ou recusar a importância, a sabedoria, a experiência, o afeto ou o carinho da Avó mas defender e assumir o meu papel de Mãe. Deixar bem claras as funções e as fronteiras de cada papel num acordo que tem de ir para além das intenções e pressupostos. Um acordo entre Mães, realizado de forma honesta e frontal que respeite o papel de cada uma sem que a mais velha, por se considerar mais experiente, queira tomar conta da situação e a mais nova, por se considerar new age não respeite a importância do papel ternurento e cúmplice da avó e a sua experiência e sabedoria. As linhas que desenham este contrato não são óbvias nem tão pouco Universais ou do censo comum. Elas são sim aquilo que funciona para o casal e que deve ficar claro para as avós, independentemente do número de vezes que se tenha de “ler” em voz alta o contrato.

É importante reconhecer que nos encontramos todos nesta roda de aprendizagens coletivas – nós a aprendermos a ser Mãe do Filho, Esposa do Pai, Filha da Avó, Nora da Avó; elas a aprenderem a ser Mãe do Pai, Mãe da Mãe, Avó do Neto; eles a aprenderem a ser Pai do Filho, Marido da Mãe, Filho da Avó, Genro da Avó. Para que estas aprendizagens sejam transmitidas de forma segura ao pequeno Ser que está a aprender a ser Filho e Neto há que aprender a partilhar tempos e espaços, estar disponível afetivamente para nos entre ajudarmos nestas aprendizagens com delicadeza, respeito e sem desabilitar Pais e Avós permitindo o crescimento destes Papéis com sensibilidade e sem receio de simplesmente Ser.

Acima de tudo há que aprender a ser Filha da Avó e Avó d@ Net@ e perceber que a relação Mãe e Filha mudou. E no entretanto aprender a fazer isto com a Mãe Sogra de mão dada com o Filho Pai ou… apresentar este artigo ao companheiro e sugerir :

“Eu faço isto com a minha e tu com a tua, combinado?”

E se ele não quiser ler? E se ele não quiser agir? E se ele não se importar assim tanto com o que acontece com a relação do seu filho com a sua Mãe? Como deve ser o meu papel de Mãe em relação à Avó Paterna?

A minha sugestão é sempre a favor da criança. Acredito que quantas mais pessoas amarem os meus filhos e mais eu promover essas relações de amor fraterno maior será o núcleo de protecção e rede de apoio dos meus filhos fazendo-os sentir mais protegidos, nutridos e felizes (inclusive se em alguma altura eu, ou o Pai não podermos estar).

Por outro lado, muitos Netos que têm o privilégio de ter um dos Avós por perto podem passar mais tempo e de maior qualidade com os que, para além de cuidadores, os amam de forma efectiva como os Pais. E esse papel não tem de ser exclusivo da avó materna uma vez que não restam dúvidas sobre a equanimidade dos sentimentos que os avós maternos e paternos têm pelos seus netos. Assim, independentemente de ser “minha ou tua” é nosso papel enquanto Mães incentivarmos uma relação de respeito e cumplicidade entre os nossos pequenos Seres e ambas as avós pois a avó paterna não é somente a mãe do Pai, mas também a avó dos meus filhos.

Parece-me que pensar desta forma numa altura como o Natal pode trazer paz no conflito real que acontece assim que a questão “Natal com os meus ou os teus?” se coloca. Até porque se para umas famílias a dúvida tem apenas uns quilómetros de distância, para outras famílias trata-se de um dia de viagem e no fim, o egoísmo resulta num Natal no banco de trás do carro.

[ Lara Lima ]

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